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Que lado montar

Quieto, dentro de casa, com a mão machucada, de castigo pelo medico sem poder montar, “fuçando” no Facebook achei uma pergunta interessante. Sempre comentada em cursos, estágios, conversas, porém um pouco polêmica de ser discutida (nada polêmica em ser explicada), justamente por envolver um fator cultural. Lá vai ela: Qual o lado certo de se montar no cavalo? Muitos já responderam automaticamente ao ler a pergunta:”ESQUERDO”. Está certa a resposta? Digo que esta “meia certa”. O lado certo de se montar no cavalo é o lado ESQUERDO e também o DIREITO.

A cultura diz que é do lado esquerdo, os antigos e os seguidores dos antigos dizem que é do lado esquerdo, mas até hoje ninguém me convenceu o porque de ser SÓ o lado esquerdo e não os dois lados. Suponhamos. Estou no mato, curando umbigo de bezerro, por algum imprevisto eu tenho que subir rápido no cavalo para não tomar um “esfrega” da vaca e ao tentar montar do lado direito, o cavalo me nega o lado e a vaca me pega (E tem gente que ainda dá uma coça no cavalo achando que culpa da vaca ter pegado foi do cavalo). Outra situação: Em um concurso de marcha o Juiz (mente aberta) resolve montar do lado direito do animal. O cavalo nega. O Juiz tenta mais uma vez. O cavalo nega outra vez. O peão quase esguela o cabresto e freio do animal, tentando segurar para o Juiz montar, o cavalo nega mais uma vez. O juiz desclassifica o conjunto. Claro que vai ganhar vaias, vai ter sua mãe ofendida, vão pensar que o Juiz não sabe montar, mas pergunto novamente: Por que o lado esquerdo é o lado de se montar? E se o nível de equitação naquela prova fosse fator decisivo para uma ou outra colocação e até mesmo uma classificação ou desclassificação? Certamente em todos os exemplos citados, se o cavalo tivesse sido iniciado dos dois lados, treinado dos dois lados, soubesse ser montando e apeado do lado esquerdo e direito, a vaca não pegaria o peão e nem o outro animal teria sido desclassificado.

Mas de onde veio isso, de se mexer com cavalo do lado esquerdo? Vamos voltar um pouco no tempo e na historia.

No passado, as batalhas eram feitas a pé. Com um pouco de evolução e domesticação do cavalo, as batalhas passaram a ser montadas. Vamos associando os fatos. A maioria da população é destra, com isso mais habilidosas com a mão direita. Os soldados antigamente usavam espadas longas. É mais ágil desembainhar a espada que será usada com a mão direita, com a própria mão direita, porém se essa mesma espada tivesse no próprio lado direito do soldado montado, em função do pouco comprimento do braço em relação à espada, o combatente perderia tempo nessa ação de “sacar” a espada, então esse é o motivo da espada ficar do lado esquerdo. Em função dessa mesma espada ficar do lado esquerdo, os soldados montavam do próprio lado esquerdo, pois é mais fácil passar só a perna direita por cima do arreio, do que ao contrario, passar a perna esquerda mais a espada por cima da sela. É perda de tempo, e mais complicado.

Então, com o passar do tempo, a “herança” de se montar pelo lado esquerdo foi se espalhando e hoje faz parte do nosso habito, tanto é que os apertos dos arreios e selas são todos do lado esquerdo. Existe o fator também que algumas pessoas tem mais habilidade de um lado do que do outro, e isso acaba fazendo com que ela monte sempre melhor de um lado do que do outro mas digo a vocês que tudo é questão de prática. Um canhoto, desde que treine, escreve bem com a mão direita. O destro desde que treine, pode chutar bem com a perna esquerda, e nós, desde que dediquemos, podemos montar bem tanto de um lado quanto do outro. Mas esse exercício não é só para desenvolvermos nossa habilidade, pelo contrario, a importância maior desse exercício está no cavalo.

Todo cavalo OBRIGATORIAMENTE tem que ser simétrico. Ou seja os dois lados iguais. Direito e esquerdo. Tem que ter a musculatura do lado esquerdo tão desenvolvida quanto a musculatura do lado direito. Tem que ter a habilidade de virar para um lado, tão bom quanto a habilidade de virar para o outro lado e isso é responsabilidade do TREINADOR.

Não sou muito bom em Miologia, mas sei que um músculo quando trabalhado, hipertrofia. Quando não trabalhado atrofia. Nossos movimentos são feitos a partir da contração e dilatação desses músculos. Então, um músculo bem trabalhado realizará com mais facilidade e eficiência os movimentos que estão na sua área de atuação. Já o músculo pouco trabalhado não terá o mesmo desempenho do que o hipertrofiado. Ligando os fatos mais uma vez, se eu só monto ou manejo meu cavalo do lado esquerdo, ele automaticamente terá o seu lado esquerdo hipertrofiado em relação ao seu lado direito, e cadê a simetria que temos a responsabilidade de imprimir no cavalo? Por mais boa vontade que o animal tenha de executar os movimentos da mesma maneira para os dois lados, ele sofrerá a limitação física uma vez que a musculatura não está igualmente desenvolvida.

Com isso companheiros, lemos nesse artigo exemplos práticos do “Porque” se montar e apear dos dois lados, lemos explicações históricas e culturais. Lemos argumentos lógicos e científicos sobre a importância do exercício de se montar dos dois lados, mas devemos tomar um cuidado muito grande para não bater de frente com a cultura. Não devemos nunca impor essa ideia na mente de quem tem o habito antigo, e diferente do nosso, pois haverá conflitos. Só de reconhecermos a importância e incluir isso na rotina de treino dos animais que estão sob nossos cuidados já é de grande valia. Eu tive a experiência em 2008, de conseguir convencer um grande amigo meu, produtor dos antigos, sistema todo antigo, mas um homem de bom coração, trabalhador, detentor de princípios e valores hoje em extinção, o Zé Geraldo Mendes, pai do Dauber Mendes, proprietários do Sitio Boa Esperança, em Eugenopolis – MG. Dauber já havia me dito que o pai dele era cabeça fechada para as “evoluções dos cavalos” e depois de um churrasco, como uma conversa bem sadia, eu não falando para ele que ele tava errado, apenas falando que minha opinião era a de se montar e apear dos dois lados, usando alguns exemplos como esses citados, no outro dia ele mandou o filho dele me avisar que eu tinha razão no argumento. Então, foi de grande importância. Aprendo muito mais com os antigos, do que eles comigo, porém essa fusão entre esses dois mundos tem feito com que eu saia e deixe as porteiras abertas por onde eu passar. Não afronto e nem sou digno de discutir anos de experiências mas os estudos estão ai para contribuir com a evolução e o melhoramento.

Sucesso nos treinos e espero que observem a diferença e a importância de se trabalhar os dois lados dos animais.

Por Tarcio Agostini

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